Putin reconhece independência de repúblicas separatistas no Leste da Ucrânia

Em discurso presidente russo diz que país vizinho foi criado pela Rússia soviética
Por globo.com
Foto: SERGEI SUPINSKY / AFPForças de Defesa Territoriais da Ucrânia participam de exercício militar fora de Kiev
Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia participam de exercício militar fora de Kiev

Em pronunciamento de cerca de uma hora  transmitido nacionalmente, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou nesta segunda-feira que vai reconhecer a independência das autoproclamadas repúblicas de Luhansk e Donetsk, no Leste da Ucrânia, onde separatistas pró-Moscou controlam boa parte do território desde 2014 e travam uma guerra que deixou cerca de 15 mil mortos.

Pouco depois, em decreto, Putin determinou o envio de uma "missão de paz" aos dois territórios. De acordo com a agência RIA, o presidente instrui as Forças Armadas da Rússia a "garantir a paz" nas regiões controladas pelos separatistas. Não foram divulgados detalhes sobre como ocorrerá essa operação, que equivale na prática a uma invasão do território do país vizinho.

A decisão de reconhecer as duas repúblicas separatistas foi anunciada por Putin em um discurso marcado por referências históricas e ataques ao governo ucraniano e ao Ocidente, depois de uma reunião não programada e também televisionada do seu Conselho de Segurança Nacional. Na reunião, os outros 12 integrantes do Conselho defenderam o reconhecimento da independência.

— Creio ser necessário tomar uma decisão que deveria ter sido tomada há muito tempo: reconhecer, imediatamente, a independência e a soberania da República Popular de Donetsk e da Republica Popular de Luhansk — afirmou Putin.

O decreto de reconhecimento e de estabelecimento de cooperação com as duas regiões, firmado por Putin após o discurso, atende a um pedido das lideranças separatistas — respaldado pela Duma, a Câmara Baixa do Parlamento russo—, que apontam violação de acordos internacionais e afirmam que a população da área é alvo de ataques das forças ucranianas. Kiev, porém, nega as acusações.

No pronunciamento, Putin apontou que a Ucrânia é uma “parte integral” da História russa, afirmando que a “Ucrânia moderna” foi criada pela União Soviética, um processo que, em sua opinião, foi “um erro” e que prejudicou a Rússia.

— Como resultado da política bolchevique, a Ucrânia soviética surgiu, e hoje há uma boa razão para que seja chamada de "Ucrânia de Vladimir Ilyich Lenin". Ele é seu autor e arquiteto — afirmou Putin.

Para ele, as autoridades ucranianas foram “contaminadas pelo vírus do nacionalismo e da corrupção” e passaram a ser comandadas por forças estrangeiras, em especial depois do chamado Euromaidan, a revolta popular que pôs fim, em 2014, ao governo de Viktor Yanukovich, aliado do Kremlin.

O movimento também serviu de pretexto para o conflito no Leste ucraniano, com o apoio de Moscou aos separatistas, e está relacionado à anexação da Península da Crimeia, que havia sido cedida à Ucrânia na era soviética, naquele mesmo ano.

Ao abordar a situação na região de Donbass, onde ficam as duas regiões separatistas, Putin acusou as autoridades de Kiev de tentarem banir o idioma russo através de leis que privilegiam o uso do ucraniano e de reprimir a Igreja Ortodoxa russa. Ele atacou o que chamou de “fluxo de armamentos” enviados à Ucrânia, criticou a presença de militares estrangeiros, em especial da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país, e acusou o governo de Kiev de buscar obter armas nucleares.

Putin se referiu a um susposto desejo de Kiev de violar o chamado Memorando de Budapeste, de 1994, pelo qual as ex-repúblicas soviéticas da Ucrânia, da Bielorrússia e do Cazaquistão concordaram em entregar os arsenais nucleares soviéticos ao controle russo em troca de garantias de segurança por parte de Moscou. Indo além, afirmou que a Ucrânia poderia ser usada como plataforma para um ataque futuro da Otan contra a Rússia.

— Se a Ucrânia se juntasse à Otan, ela serviria como uma ameaça direta à segurança da Rússia — afirmou.