Desmond Tutu: a "força da paz" é a sua herança

Em 16 de outubro de 1984, o arcebispo Tutu recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Por Alexandra Teodoro
Foto: ArquivoEm 16 de outubro de 1984, o arcebispo Tutu recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Em 16 de outubro de 1984, o arcebispo Tutu recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

A Igreja e o mundo choram a morte do arcebispo anglicano Desmond Tutu, que faleceu no domingo, 26 de dezembro, aos 90 anos. Símbolo da luta contra o Apartheid na África do Sul, ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1984. O Papa num telegrama recorda o seu compromisso com a igualdade e a reconciliação. Leone Gianturco (Santo Egídio) conta o dia em que se encontraram em 1988: sua fé e força moral são inesquecíveis.

"Não negamos o nosso passado, olhamos a besta nos olhos." Assim, o arcebispo Desmond Tutu, que em 26 de dezembro aos 90 anos, um dos símbolos da luta contra o Apartheid, falava sobre o compromisso de liderar a Comissão para a verdade e a reconciliação. Estabelecida em 1994 a pedido do presidente Nelson Mandela, foi presidida pelo arcebispo a pedido do próprio Chefe de Estado sul-africano.

Um homem de paz

Em 16 de outubro de 1984, o arcebispo Tutu recebeu o Prêmio Nobel da Paz. O comitê do mais conhecido prêmio internacional citou seu "papel como figura unificadora na campanha para resolver o problema do Apartheid na África do Sul". Dois anos depois, ele se tornou o primeiro negro a guiar a Igreja Anglicana na África do Sul: era 7 de setembro de 1986. O arcebispo era um homem de paz, um servo de Cristo e também inspirado no conceito africano de ubuntu, que indica uma visão de sociedade em que cada pessoa é chamada a desempenhar um papel importante, com uma atenção natural ao outro e, consequentemente, à promoção e manutenção da paz.

Igualdade e reconciliação

Desmond Tutu estava “a serviço do Evangelho, através da promoção da igualdade racial e da reconciliação na sua África do Sul”. Assim, o Papa, num telegrama ao núncio apostólico no país africano, dom Peter Wells, e assinado pelo cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, lembrou o arcebispo anglicano. Francisco expressou toda a sua proximidade à família de Tutu, "confiando sua alma à misericórdia amorosa de Deus, invocando as bênçãos divinas da paz e do consolo no Senhor Jesus para todos os que choram a sua morte na esperança certa e certa da ressurreição". O Papa o recordou em sua encíclica Fratelli tutti, entre os "irmãos não católicos" que o motivaram "a refletir sobre a fraternidade universal".

Uma semana de luto

Na última segunda-feira começou na África do Sul uma semana de luto. Graça Machel, viúva do presidente Nelson Mandela, definiu a morte do arcebispo como "a perda de um irmão", acrescentando que Tutu "é o último de uma geração excepcional de líderes que a África gerou e deu ao mundo". "Ele usou com maestria sua posição de eclesiástico para mobilizar sul-africanos, africanos e a Comunidade internacional contra a brutalidade e a imoralidade do governo do Apartheid." Os sinos da Catedral de São Jorge tocarão diariamente por dez minutos ao meio-dia até sexta-feira, com o pedido a todos para interromperem as atividades diárias para fazer uma oração e um pensamento a Tutu. Os restos mortais do arcebispo serão levados à Catedral de São Jorge, em Cidade do Cabo, na sexta-feira, 31 de dezembro, véspera do funeral, ao qual, devido às restrições impostas pela pandemia, não poderão participar mais de cem fiéis.

"Não há futuro sem perdão"

Entre os muitos que o conheceram, a Comunidade de Santo Egídio também se lembra do arcebispo sul-africano, identificando "na força da paz" a sua herança. Vários expoentes da Comunidade o encontraram ao longo dos anos. Dentre eles está Leone Gianturco, da Seção Internacional de Santo Egídio, que em entrevista à Rádio Vaticano-Vatican News recorda quando o arcebispo veio a Roma, em 26 de maio de 1988, para inaugurar a 'Tenda de Abraão', a primeira casa comunitária dedicada aos refugiados.