Os desafios e a força da música autoral Made in Piauí

O artista independente precisa investir em seu trabalho se quiser ser tocado nos streamings
Por Alexandra Teodoro

O grande empecilho para a música autoral talvez seja oportunidade de tocá-la. A grande maioria dos bares, restaurantes, pubs e casas de shows esperam que o artista toque canções consagradas, por acreditarem que vai “chamar público”.

Foto: ArquivoDeeplo
Deeplo

Cantora e compositora, Stela Ananda (soteropolitana casada com  piauiense) fala sobre o processo de manifestar a canção. “Para mim, compor é um exercício de transbordo... Parece que há algo dentro de nós, algo que chamo de alma, que precisa se derramar. Compor é isso: derramar-se. Depositar um pedaço de alma em um espaço do papel. Criar algo é imprescindível e urgente, para não sufocar.  Para se traduzir por meio da arte”, falou a artista que tem o seu trabalho autoral na Deeplo, ao lado do parceiro Yago Lima, que também é seu marido.

Foto: ArquivoCharleno Pires
Charleno Pires

O artista independente precisa investir em seu trabalho se quiser ser tocado nas plataformas de streaming, território de possibilidades para tornar o artista e suas músicas conhecidos para além de seu próprio território de atuação. “Quando você investe seu tempo, seu foco, sua energia, seu plano artístico em autoral, você está mostrando ao mundo que você tem algo novo para que o mundo possa conhecer e quem sabe curtir e seguir, além disso, você está também assumindo o risco e dando um recado que você é o primeiro a valorizar seu trabalho”, explica o músico Charleno Pires, de Amarante, interior do Piauí.

Ele reforça que não é fácil investir em autoral, porque sempre nos primeiros momentos as pessoas terão que passar pelo crivo da descoberta, seja aprendendo a letra, seja descobrindo as harmonias e melodias ou mesmo as batidas que aquela canção trás e consigo todo o conglomerado de sentimentos e sensações que vão acontecendo, até chegar o momento que a canção está no ponto comum, e todos os que tiveram contato acabam reproduzindo-a naturalmente. Charleno comenta que, apesar dos obstáculos “Investir em autoral é por vezes, investir na sua branding, no que te representa, na tua estética musical e artística, é mostrar ao mundo o que você é e pra que veio, e expor isso através das canções traz significados e firma espaço”.

Foto: ArquivoNildo Viana
Nildo Viana

Um dos expoentes da música piauiense é Nildo Viana, compositor, cantor e líder da banda de reggae Alma Roots, que tem marcado seu espaço de forma incisiva, com experiências de representação fora do Estado do Piauí, através de projetos como Encontro das Tribos.

“O trabalho autoral é fundamental para criar um legado para o artista, o passo necessário para imortalizar a identidade artística, além de ser um elo da corrente que fortalece uma real construção de cena musical de uma região”, fala o músico.

Nildo faz uma relação sobre o endeusamento da música cover, como sobreposição à produção própria. É óbvio que sempre existirão clássicos a serem tocados. Não é uma questão de comparativo mas, de oportunidades.

Nildo Viana costuma dizer que “O sucesso de músicos cover é uma ilusão que os deixa "acomodados" à condição de subsistência, em razão do fator financeiro, já que o retorno e mais rápido e objetivo”.

Sobre as pedras no caminho, o realizador do Circuito Piauiense de Reggae, Nildo Viana admite que o árduo caminho do Artista autoral é muito mais complicado. “Temos que convencer as pessoas a parar seu tempo intenso e corrido pra experimentar algo que não esteja sendo "socado" cérebro a dentro forçadamente “, fala.

Nildo comenta sobre alguns artistas que tentam conciliar autoral e cover. “Gravam seus trabalhos, fazem clipe, colocam nas redes sociais achando que assim vão alcançar o sucesso. Mas tem um detalhe: esquecem que essa música precisa alcançar um público orgânico. E falham ao deixarem de tocar suas canções na noite achando que magicamente ela vai acontecer na internet”.

Até acontecem, se houver investimento nesse universo on line, como impulsionamento, associar também a outros veículos. Fazer um plano de escoamento desse trabalho.

Foto: Alexandra TeodoroNeanderthais Band
Neanderthais Band


Em alguns bares o artista mais esperto, canta primeiro sua canção e depois fala que é autoral. Uma estratégia bastante utilizada pelas bandas de rock, como a Neanderthais Band, por exemplo que após mandar um Led Zeppelin, entra com a irretocável Com’in home, celebrada por aplausos. É quando o cantor e preparador vocal Zek Veloso dá o recado : “ essa é nossa, está no spotify”. A Neanderthais Band está em atividade dsde 2009, com Disco lançado, participação em diversos festivais, Clipes e muita identidade  n os projetos autorais.

A música underground e poucos espaços

Foto: ArquivoKandover
Kandover

Tem segmentos musicais que aguentam a pancada um pouco mais. O Metal, o Punk Rock, por exemplo costumam encontrar mais resistência em relação a espaços para tocar. Questão essa que se repete nos espaços de mídia, rádios, televisão e afins. “Investir no trabalho autoral é respeitar as obras que criamos”, fala Jairo Mouzzez, vocalista da banda Kandover, na estrada desde 2009.  “Começamos nossa trajetória autoral e 2016, no “Quanto Vale o show?”, comenta. A Kandover traz em suas letras a crítica social misturada com muito bom humor e sarcasmo, o que deixa o quadro mais enebriado pra o segmento. Mas, vale ressaltar que a partir do lançamento do EP “ O Povo” em 2017teve uma repercussão positiva em alguns blogs especializados, reverberando em shows com bastante frequência na capital piauiense.

Jairo complementa que “fazer música autoral é dar valor ao nosso trabalho e nos colocar em pé de igualdade com os grandes artistas que admiramos. É como ver um filho nascer. Conceber a ideia, pensar nos conceitos, entrar no estúdio e gravar, é parte do tornar-se artista.”

Mudança de mentalidade

No fim apesar das dificuldades não existe nada mais satisfatório que você como artista ver sua obra na boca das pessoas, sendo cantada, sendo festejada. A frase acima é do Nildo Viana. Ele diz que os “artistas made in Piauí” precisam sair da bolha. “A bolha que nos prende, desses velhos conceitos de uma geração que se prende a velhos festivais " mortos", a uma consciência musical de "buteco" onde se briga e se "intriga" por migalhas, conceitos ultrapassados de ego que acham que o caminho é "receita de bolo" que vem pronto na internet ou em vídeo aulas, seja lá de quem for”.

A verdade é que sua essência e verdade não estiverem claras, ninguém vai conseguir resolver sua relação com o sucesso. Para o musico o mercado sofreu uma mutação, existem nichos e ao mesmo tempo que tudo é muito nicho e ao mesmo tempo tudo é misturado, virtual e orgânico. “Essa é a nota do novo mercado, e pra tocar essa música e avançar precisamos encara o autoral como vida, não como hobby, ou uma parada de "tempo livre", finaliza

Importância de compor

Foto: ArquivoBruno Farias
Bruno Farias

Os maiores clássicos da música mundial, um dia foram canções conhecidas apenas pelos seus criadores(as) ou por pessoas mais próximas a eles(as). Bruno Farias, compositor, cantor, professor de musicalização comenta que “ao passar por processo de gravação em estúdio, captação, mixagem e masterização, uma música antes restrita a poucos, fica pronta para ganhar dimensões inimagináveis em milhares de universos mentais através do processo de divulgação(marketing)”.

O músico é um entusiasta da junção de trabalho autoral e mídia digital. Destaca que “milhares de pessoas poderão ser tocadas com o conteúdo de uma canção que "fale da vida em Ré maior", ou em qualquer tom que seja, parafraseando Oswaldo Montenegro. Por isso, quem é compositor, tem grandes poderes e, também grandes responsabilidades. O compositor, de repente pode se tornar uma espécie de pintor, influenciador ou até mesmo mentor de milhares de universos(pessoas) individuais. E isso, é de uma grandeza imensurável”l...

Raul Seixas dizia, comenta Bruno: "O homem passa mas, suas músicas ficam", instigando os artistas a produzirem: “Eu digo - não paremos de compor, as canções são os registros mais eternos da passagem de um criador por este plano. E talvez, a capacidade de criar, a inspiração, seja um dos sinais mais claros da evidência divina, de que fomos criados por um ser supremo. A composição também é fonte de vida, em todos o sentido”, falou.

E finaliza: “É imprescindível lembrar que para toda essa cadeia funcionar, tudo começa a partir da ideia de um compositor, em seu momento mágico de criação”.

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