Filmes dirigidos por cineastas indígenas para melhor compreender a diversidade

A recém-lançada plataforma de streaming da organização traz em seu catálogo
Por Alexandra Teodoro
Foto: AssessoriaFilme
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A recém-lançada plataforma de streaming da organização traz em seu catálogo

a mostra Um Outro Olhar: Cineastas Indígenas. Ela reúne cinco filmes especialmente selecionados pela documentarista, curadora e diretora do festival fórum.doc BH, Júnia Torres. Realizados por cineastas indígenas, ampliam as suas vozes e abordam aspectos culturais de seus povos e suas lutas contra a invasão ilegal de suas terras. Outros quatro filmes dirigidos por não indígenas têm as culturas indígenas como personagens

Existentes desde a chegada dos portugueses no Brasil, neste momento as lutas indígenas ganham ainda mais evidência, pelo constante aumento de invasões de suas terras. Também, pela recente repressão ao acampamento Levante pela Terra, em Brasília, organizado para repudiar a votação do Projeto de Lei 490/2007. Aprovado nesta quarta-feira, 23, por 40 votos favoráveis a 21, na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ), ele propõe o fim das demarcações, a revisão das terras indígenas e a regularização do garimpo.

Para melhor compreender as demandas desses povos por reconhecimento e justiça, é importante conhecer a diversidade de suas culturas. Desde o seu lançamento, no sábado, dia 19, a Itaú Cultural Play – itauculturalplay.com.br – apresenta uma mostra com cinco filmes que tratam do tema, todos sob a direção de cineastas de diferentes etnias indígena, homens e mulheres. Chamada Um Outro Olhar: Cineastas Indígenas, ela tem curadoria de Júnia Torres, documentarista e diretora do festival fórum.doc BH.

Além destes, outros filmes, com direção de não indígenas, mas que também abordam a cultura dos povos originários, podem ser vistos:  500 Almas, de Joel Pizzini, que integra uma mostra inteiramente dedicada ao diretor. Taego Ãwa, de Henrique Borela e Marcela Borela e Território: nosso corpo, nosso espírito, de Clea Torres e João Paulo Fernandes, estão presentes na mostra Sapi: Um Olhar do Centro. Dentro da coleção audiovisual do Itaú Cultural, Patxohã, a língua de guerreiros, tem produção instituição e direção do jornalista Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura da organização

A plataforma tem acesso inteiramente gratuito e o catálogo exibirá permanentemente este tipo de produção.

Um Outro Olhar: Cineastas Indígenas

O documentário As Hiper Mulheres, lançado em 2011, tem direção de Takumã Kuikuro, Leonardo Sette e Carlos Fausto e produção do Vídeo nas Aldeias. No enredo, em uma aldeia dos indígenas Kuikuro, no Mato Grosso, uma anciã faz um último pedido para o seu companheiro – cantar no Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu. As mulheres se reúnem para ensaiar e preparar a festa, mas a cantora que guarda a memória das antigas músicas está doente. O longa metragem é uma viagem antropológica ao coração de um ritual feminino ancestral e também um dos filmes indígenas mais premiados e conhecidos no Brasil.

Outro documentário, Teko Haxy - Ser Imperfeita, de 2018, de Patrícia Ferreira Pará Yxapy e Sophia Pinheiro, é intimista como um diário pessoal. Ele surge do encontro entre duas cineastas de mundos antagônicos. Patrícia, indígena da etnia Mbyá-Guarani, e Sophia, antropóloga e não-indígena. A obra chama atenção pela maneira aparentemente despojada com que cria a sua história, lembrando uma troca de cartas ou um filme doméstico. Esse aparente descompromisso é o gatilho para uma reflexão sobre diferenças culturais a partir da ótica feminina.

Em Wai’á Rini, o Poder do Sonho, de 2011, o diretor Divino Tserewahú inicia um diálogo com seu pai, um dos líderes do Wai’á, a festa, que, dentro das cerimônias de iniciação do povo Xavante, introduz o jovem na vida espiritual. Entram em cena coreografias, danças e cantos, vistos pelo olhar de uma câmera-participante, integrada à celebração e às personagens. A partir daí, são reveladas as características deste ritual secreto, essencialmente masculino, no qual os jovens passam por provações e perigos. Tserewahú foi o primeiro cineasta formado pelo Vídeo nas Aldeias, e é uma referência do audiovisual indígena. O filme ganhou o Prêmio Nacionalidade Kichwa, no 4º Festival Continental de Cinema e Vídeo das Primeiras Nações de Abya Yala, no Equador.

Yãmĩyhex - As Mulheres-Espírito, de 2019, tem direção de Sueli Maxakali e Isael Maxakali. Eles jogam luz sobre as yãmĩyhex, espíritos femininos do povo Maxakali, que passam temporadas nas aldeias transmitindo força e autodeterminação, sendo sua despedida acompanhada por uma longa festa. O filme capta a passagem destas mulheres-espírito pela terra de Aldeia Verde, em Minas Gerais, a partir da ótica Maxakali. Muito mais do que um registro, o filme é o resultado artístico da efetiva participação dos realizadores no ritual das mulheres-espírito. A câmera se integra aos preparativos e à festa de despedida, revelando a beleza de sua cultura. Sueli Maxakali é também uma das primeiras diretoras indígenas do país. A obra venceu o Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Longa-Metragem, na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2019.

Zawxiperkwer Ka’a – Guardiões da Floresta, também foi lançado em 2019, sob direção de Jocy Guajajara e Milson Guajajara e produção do Vídeo nas Aldeias. Ele narra a dramática luta dos indígenas Guajajara e Awá-Guajá contra a invasão ilegal de suas terras no Maranhão. Alvo da violência de criadores de gado, caçadores e madeireiros, responsáveis pelo assassinato de seis de suas lideranças, os indígenas mobilizam-se em torno dos Guardiões da Floresta. O filme apresenta essa história com a tensão digna de um thriller policial, tendo como cenário a última parte preservada da floresta amazônica maranhense. Fortalecendo o protagonismo de suas personagens, a narrativa acompanha de perto as ações de resistência dos Guardiões da Floresta.

Filmes com temática indígena

Em 500 Almas, Pizzini trata redescoberta cultural e identitária dos indígenas Guatós, dados como extintos nos anos de 1960 e reencontrados, anos depois, na periferia de Corumbá. Seu modo de vida, sua relação mágica com os rios e a natureza do Pantanal e a reconstrução de sua língua são os focos deste premiado documentário. Para compor esta história, ao mesmo tempo trágica e emocionante, o diretor recorre a sequências encenadas, depoimentos, cenas de arquivo e encontros. Ao lado do interesse pelos mitos Guatós e pela memória, estes materiais compõem o que o diretor define como etno-poesia cinematográfica. Ele ganhou o prêmio de Melhor Documentário de Longa-Metragem, no Festival do Rio, em 2005, e o de Melhor Documentário Latino-americano no Festival de Mar Del Plata, em 2006.

Em Taego Ãwa, por sua vez, Henrique e Marcela Borela centram a narrativa nos antigos habitantes do Brasil central, os indígenas Ãwa, que carregam as marcas de uma campanha de violência, desterro e quase extinção, devido as investidas colonizadoras no século XIX. O filme narra sua história trágica, mas também o resgate de sua cultura e de sua luta pela demarcação de terras. A produção nasceu do contato dos cineastas com velhas fitas VHS encontradas nos armários de uma universidade. O material mostrava cenas cotidianas dos Ãwa. A partir delas, de novas filmagens e de conversas com os indígenas, os diretores restituem a voz e a imagem desse povo, dado como desaparecido. Foi vencedor do prêmio de Melhor Filme, no 19º Fica – Festival Internacional de Cinema Ambiental, em 2016.

Clea e Fernandes documentaram a reunião em Brasília de povos indígenas de diferentes regiões do país, em 2019, no Acampamento Terra, para reivindicar direitos e a demarcação de suas terras. Assim, Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito, abre um diálogo direto com a atualidade. Neste espaço público, mulheres indígenas assumiram o protagonismo da batalha contra os desmandos do novo governo. “Estamos lutando pelo nosso direito de existir”. A frase da líder Sônia Guajajara é ilustrativa deste filme-manifesto centrado na presença das mulheres na frente das lutas indígenas. Falas e depoimentos de diversas líderes estabelecem relações entre a noção de território, corpo e autonomia feminina. Foi menção honrosa, na 9ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em 2020.

Patxohã, a língua de guerreiros, tem produção do Itaú Cultural e direção do jornalista Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura da organização. A obra revela a jornada do povo indígena Pataxó, do Sul da Bahia, para reconstruir seu idioma original, o patxohã. A mobilização das lideranças indígenas e o trabalho de escuta realizado junto aos anciãos, memória viva da tribo, guiam os caminhos de uma busca maior por identidade e reconhecimento culturais.

O documentário se destaca pelo protagonismo dado aos indígenas e pela originalidade do tema. A reconstrução da língua patxohã é também o ponto de partida para uma reflexão sobre a história, os mitos e lutas dos Pataxós e um testemunho contundente da sistemática violência do homem branco.