77% dos pais de crianças trans afirmam que seus filhos já foram vítimas de bully

Entre os autores das violências, 65% eram profissionais das instituições de ensino
Por O Globo
Foto: Mikhail Nilov/PexelsCrianças e adolescentes trans sofrem hostilidade no ambiente escolar brasileiro, mostra pesquisa inédita
Crianças e adolescentes trans sofrem hostilidade no ambiente escolar brasileiro, mostra pesquisa inédita

O ambiente escolar brasileiro é hostil para crianças e adolescentes trans — e os principais
autores de transfobia são os profissionais de instituições de ensino. Essa é uma das conclusões da pesquisa inédita "Vivências reais de crianças e adolescentes transgêneres dentro do sistema educacional brasileiro", realizada pela coordenação nacional da área de proteção e acolhimento a crianças, adolescentes e famílias LGBTI+ do Grupo Dignidade — ONG que atua há mais de 30 anos na promoção dos direitos da população LGBTI+. O estudo teve o apoio da UNESCO e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS.

Foram entrevistados 120 pais, mães e responsáveis que reconhecem ter uma criança ou adolescente transgênero, moradores de 62 cidades em 17 estados brasileiros. Entre as pessoas entrevistadas, 77,5% informaram que seus filhos, crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, já foram vítimas de bullying transfóbico no ambiente escolar. Entre os adultos autores das violências, que podem ser físicas, verbais, emocionais ou cyberbullying, 65% eram profissionais das instituições de ensino, sendo que 56% deles eram professores.

A pesquisa mostra, ainda, que 24% das famílias mudaram as crianças e adolescentes trans de escola em decorrência de bullying transfóbico sofrido na instituição. Outro dado indica que 98% dos pais, mães ou responsáveis não consideram o ambiente escolar brasileiro seguro para suas crianças e adolescentes trans. “Os dados obtidos pela pesquisa reforçam o que é sabido entre as mais de 200 famílias que já foram acolhidas: o ambiente escolar brasileiro pode ser de terror para crianças e adolescentes trans”, destaca Thamirys Nunes, da área de proteção e acolhimento a crianças, adolescentes e famílias LGBTI+, e coordenadora da pesquisa.

Segundo ela, os resultados deixam claro que o bullying não é uma ação que ocorre apenas entre crianças e que é preciso a intervenção das instituições e da sociedade para dar fim a este tipo de violência. “O bullying e a discriminação acabam fazendo com que pessoas trans desistam dos estudos. Não devemos usar o termo evasão, pois não se trata de desistência. Elas são expulsas do ambiente escolar”, observa Thamirys, que é ativista pelos direitos trans infantojuvenis, mãe de uma criança transgênero e autora do livro “Minha Criança Trans: relato de uma mãe ao descobrir que o amor não tem gênero”. 

Opiniões

Fundador e atual diretor executivo do Grupo Dignidade, Toni Reis destaca a importância
do estudo. “Somente por meio da ciência, com trabalhos como este, é que conheceremos a verdade e a verdade nos libertará dos preconceitos foscos e muitas vezes discriminatórios que ocorrem com as crianças e adolescentes trans”, afirma. “Os resultados da pesquisa corroboram nossos 30 anos de ativismo e militância LGBTI+, mostrando, nos retratos das realidades vividas e vivenciadas, a dificuldade da aceitação, o bullying na escola, o isolamento social por ser diferente do convencionalmente esperado”, completa.